sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Sempre a poesia


Florbela Espanca

Languidez

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...



Antes de ser apresentada a Florbela eu pensei que conhecesse a poesia, mas foi apenas quando eu a conheci que a poesia foi apresentada a mim verdadeiramente.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

IDÉIAS SIMPLISTAS

A Menina e o Lobo
A MENINA E O LOBO (GERSON WATANUKI)
Me invadiu.
Manchou todas as minhas aquarelas e as sequela foi uma catarata irreversível.
Se apropriou dos meus desenhos animados, tornando-se muitas vezes personagem que me animava.
Me musicou, cifrou-me, cantou-me, encantou-me, cancionou-me e letrou-me.
Cantou muitas vezes pra mim pela voz das janelas que foi abrindo em mim, melodiou meu mundo.
Misturou-se ao aroma do café, ao sabor do chocolate amargo, a espuma do banho.
Está na legenda dos filmes que comentamos.
Escondido nas orelhas dos livros que citamos.
Na minha preocupação nos exageros com o perfume, com o decote, com os comentários.
Agora é simples, simplista tirar você de tudo isso que sou eu.
Mudo de identidade; reinvento-me como menina, como mulher; outra, sim, serei outra, abandonarei tudo que possa me fazer lembrar de você ou então darei outro sentido e significado a todas as coisas que nos ligam de algum modo que seja, muito simples.
Troco o café pelo chá verde?
A MPB pelo tango?
O chocolate pelo alcaçuz?
Mitologia por teologia?
A masturbação pela culinária?
Assistirei somente violência e terror?
Lerei livros de auto-ajuda?
Você encheu de particularidades todas essas coisas... fadas, borboletas, traças e louva-deus.
Acredita que desistindo da tecnologia, da autoria, dos intervalos de 20 minutos conseguirei simplesmente varrer você na minha história?... esquecendo que fui sua musa... que foi minha inspiração... e que você é a melhor de tudo que não aconteceu até hoje.
Obs: ganhei uma máquina de pão; será que também terei que vendê-la?
Obs2: poderia trocar por uma máquina que me fizesse dormir sem sonhar...

NADA ALÉM DAS TRINCHEIRAS

Joker
JOKER (GERSON WATANUKI)
Há trincheiras no meu horizonte; e com todas as infinitas possibilidades vigiadas; só me resta o olhar ensimesmado; ou escavar espaço entre as entrelinas dos livros de filosofia;
Poesias e romances entraram no index da clausura;
Além dos seguintes vetos velados:
- Nada de olhar para lugar nenhum;
- Nada de ouvir músicas aláveis;
- Nada de café com chocolate amargo;
- Nada de mitologia; HQs; Pseudônimos; Lado B; pseudônimos;
Enfim, passe pelos dias sem tripallium acorrentada ao presente; arrastando-se como um ser humano comum sobre campos, rios, estradas intermináveis, sem esse repertório cheio de figuras de linguagem ultrapassada, aliterações cansativas e o apelo meloso das reticências.
E assim assado, sobrevivo. 

A cura

Sofia
SOFIA (GERSON WATANUKI)
Como saber se está curado de uma doença ainda sob efeito dos medicamento?
Longe do vetor, do agente, do causador da infermidade... há como saber se estamos resistentes?
Como saber se a resistência ainda não está baixa se a bolha imunológica nos protege?
Como, no isolamento, poder ter certeza que o ar externo não vai trazer consigo a febre, insônia, angústia?...
Como, internos na dieta do olhar, sentir que resistirá ao prato quando esse se apresentar em um banquete inevitável?
Diante da sombra que me abateu esses dias, sinto-me desconfortável para respostas positivas.
Porém, meus instintos de sobrevivência primitivos apontam-me que a quarentena é bem vinda. Um bálsamo, um emplastro, um momento de hibernação dos elementos míticos, metódicos ou melancólicos de uma relação nas migalhas...
Essa pausa faz, na ilusão da distancia física, alimentar-se de outras senseções esquecidas:
Dos amigos da faculdade e suas conversas cheias de afeto...
Dos longos passeios pelo campo...
Das visitas familiares regadas a novidades, brevidades e o delicioso café passado no coador de pano...
Das leituras e cochilos na rede, seu balanço, a preguiça, o cuidado de si e do que lhe dá prazer sem dor...
E... quando... quando todos os seus movimentos corpóreos parecem não mais ser para ser notados... quando seus vestuários estiverem despretensiosos de olhares em seu colo... e... até sua fala estiver descomprometica de profundidade... vem de ímpeto uma imensa coragem de sair da UTI e enfrentar a vida... a rotina...
Mas, ao mesmo tempo, a consciência de deixar para traz a ilha, cercada por águas seguras e quentes, sem terremotos, tsunames, antropófagos, Aliens ou predadores...
Que paura... arrepio na espinha na hora de tirar o esparadrapo, a tala, o gesso, os pontos, o soro, o oxigênio... esse ... esse último me leva a um suspiro profundo... a pressão cai ... o corpo formiga ao tentar colocar o pé no chão... já senti isso tantas vezes...
Mas estava pronta... decidida... até aparecer em minha frente aquela sopa de letrinhas... a primeira refeição para deixar o leito... eram poucas letras... muito líquido insonso... mas chegavam a formam meia dúzia de palavras tímidas, cautelosas (como deve ser meu caminhar agora)... 
Não quero cair em abismos, fossas abissais, ausências...
Perdoe-me... ainda estou sob efeito dos anestésicos, fiquei muito tempo amordaçada e a camisa de forças deixou meus movimentos lentos... movimentos não muito convincentes... mas, meus ouvidos estão perfeitos...
e eles ouviram durante o período do coma... de muitos profissionais experientes... que se trata de doença crônica.



terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A menina e a mosca (SEGUNDA PARTE)

Sem título
SEM TÍTULO (GERSON WATANUKI)

Ela olhava para a mosca de soslaio e seu olhar fixo a deixava tímida e curiosa... (seu cinismo a inocentava de toda promiscuidade presente no ar)... parada na cortina embolorada, com seus desenhos disformes, desbotados, um plástico cheio de poás, podre...
Estavam possuídas e descontroladas de tesão, a menina esfregava o dedo no clitóris, tetinhas cada vez mais entumescidas, carne esmagada entre os dedos quente e sensível até à sua respitação ofegante... a mosca esfregava suas patas dianteiras no rosto, se limpando e se lambendo diante do banquete que se oferecia para sua degustação...
Ela desejou muito a mosca... seus pensamentos suplicavam pela participação desta em seu gozo... e... num movimento em redemoinho ela veio, saiu do seu estado de repouso voier e veio participar... gostou do que viu, carne exposta de cheiro forte... cheiro de saliva azeda no bico dos seus peitinhos pouco desenvolvidos, cheiro de frutos dos mar, suor da puberdade que se somava ao aroma do lugar, uma mistura de esconderijo de barata e amoníaco... 
A mosca veio, pedia por isso, implorava aos sussurros, mendigava desavergonhadamente que pousasse sobre seu corpo, imaginava em sua loucura que ela, pela vontade de todos os demônios que a atormentavam naquele momento, se transformasse num ser com uma língua potente a lhe lamber os odores, e nessa ânsia sua boca salivava, queria a mosca não só lambendo seus mamilos mal formados, mas lambendo também seu grelinho, seu cuzinho...
Ela veio... veio... zummmmmmmmmmmmmmmmmmmmm....zummmmmmmmmmmmmmmm... zummmmmmm...zummmm...zummm...zumm... zum...z...
e foi se acomodando em seu ninho de poucas penugens... atraída pelo seu fedor... calor... humidade... ela veio... a menina flutuava... não sentia nada além do movimento da mosca em seu corpo... e explorando seu frágil corpo... ela pousou em seu clitóris... que de tão sensível parecia estar sendo tocado por um corpo significativo... ela obedeceu suas súplicas, solicitudes silenciosas para não assustá-la... e começou a lamber-lhe... era muito intenso... quase insuportavel... imaginava estar sendo penetrada por um grande membro (quente e macio) sentia até seu cheiro... que se confundia com o do esgoto que a pia exalava, por não ter sifão, tudo a levava a querer essa alcova.
Ela a serviu de toda a sua potência... andou e lambeu toda a sua carne arroxeada e lambuzada de saliva e meleca vaginal... era virgem... não tinha coragem de ir além do clitóris... só com o chuveirinho... enquanto sua amante passeava sobre seu clitóris ela permanecia como uma estátua, esperando e captando cada movimento... a sensibilidade era tanta que suas lambidas eram como línguas de gato... sentiu tudo o que podia física e imageticamente e... quando o seu corpo parecia estar entrando num processo de cãibra generalizada... urrou... num gozo trêmulo, aos socos, aos soluços... em segundos foi se desfazendo... se derretendo sobre aquele vaso encardido que doía em sua bunda magra, escorregando em seus suores, melados corpóreos, fluídos do ritual catártico...
desabafou todas as suas frustrações... o corpo e a consciência estavam entrando vagarosamente num processo contrário ao prazer... o corpo doía pelos excessos físicos... e a mente se torturava pelos excessos onírico ... como suportar ter desejado ser possuída por um demônio... como?
Culpou a mosca... invasora do seu esconderijo...
Culpou a irmã... 
Culpou a vida... desgraçada...
Tomou um banho com o sabão de cinza e enchugou-se na toalha de saco... cru... como seus horizontes...
Esfregou-se muito com a bucha de mato... queria que a dor do banho sobrepusesse a dor do ato... era sempre assim... sempre que gozava se sentia culpada, o alívio e a culpa se misturavam e a deixava pensativa... por isso tinha matado-a, como uma viuva negra, por isso tinha que eliminar as provas, os cúmplices...  por isso tinha que se purificar no banho... na missa de domingo... com os olhos baixos... sempre esquivando dos olhares alheios... temia sua transparência... sua satisfação escancarada...
Mesmo no dia que... (CONTINUA)

Ressaca moral (I)

Estou triste
Sempre chego sem saber o que dizer
Você me deixa assim
Mas hoje é pior
Sei que será só um mea culpa 
Tartaruga
TARTARUGA (GERSON WATANUKI)
Não precisa se esforçar para fugir...
EU não bebi, e mesmo que o tivesse feito... não preciso disso para dizer o que sinto ou o que invento que sinto... se sinto: sinto... caso contrário... não digo...
Sei que não passo de uma mulher balzaquiana insistindo no frescor das paixões juvenis...
Não passo de uma mulher chata teimando em continuar interessante.
Sei, e essa consciência do que sou... me garante que a poesia é um presente luxuoso que não posso dispensar... por isso ... melhor ser embriagado de poesia do que lúcido pelas garrafas e latas engolidas sem controle...
Vou plantar uma árvore hoje.
Pagar algumas contas.
Preparar minhas refeições sem muita cerimônia.
Para sobrar mais de mim para alimentar a poesia antropófoga.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Traça

..
TRAÇA (GERSON WATANUKI)
Fui "arrumar" meus livros e papéis...
Com todos sempre a dizer o que devo fazer.
Casa arrumada por terceiros, faltava meu canto.
Pranto não adianta, tenho que remexer em tantos espaços deixados para depois...
Tudo me serve, como me desfazer, sou tudo que tenho guardado, que tento ser resguardada...
Pus tudo abaixo, com cuidado e pressa
Para não estragar, nem me arrepender
Móvel limpo, estante lustrada com óleo de peroba... conhece?
Tentei ordenar por assunto, sentei entre os títulos, coloquei entre as minhas coxas as coleções, presentes, aquisições em sebos... emprestados e não devolvidos, relíquias imprestáveis mas nunca dispensáveis...
Sou traça, todo papel literário é bem vindo... celulose e poesia... aguça meu apetite...
Tentei ordenar por uma lista de espera... não coube no espaço reservado... e numa distração... acabei iniciando várias leituras... recomeçando umas... introduzindo outras pelo meio, enfim...
passei horas entre livros nas coxas, colo, braços, nos pés, entre os dedos, uma orgia...
Com tantas texturas, formas e cheiros...
limpava uns, ria de outros, encontrava anotações antigas e já inválidas, papéis entre livros, fotos...
(como criança que, colocada para arrumar seus brinquedos, interessa-se por inventar brincadeiras intermináveis, não arrumando nada.)
E ainda nem cheguei nas revistas... nos papéis... cartas... cartões... pequenas anotações... cadernos antigos... agendas, dezenas delas... já disse que gosto de escrever, não digitar?
Acabou o tempo... pequei uma caixa grande... arquivei o passado remoto... mantive próximo o passado recente... não me desfiz de nada... não é fácil se desfazer de histórias bem contadas.

Escrito com cinza de cana...


Estou sem inspiração, não porque não tenho o que escrever. Falta jeito, vontade, motivo...
Poderia discorrer sobre a terapia, a família, o trabalho, o cotidiano, enfim... a vida tem transcorrido com material farto para contos, poesias, crônicas, romances e até épicos; todos os tipos literários...
Mas me falta o tesão, a paixão, a libido.
Preciso disso pra dizer de mim... jorrar... gozar em códigos gramaticais...
Estou mais para fotografar, cantar, dançar, até assistir a um filme... nem a ler estou...
Estranho... não me pego sem vontade de ler desde que tive pielonefrite...
Mal estar que lembra uma dieta... recuperação de um mal que devastou minha alma... são dias e dias de consumição... estou em cinzas... com sorte quem sabe fenix surja... chacoalhando as cinzas do colo... então... esperar um amor que não fosse etílico.

QUERIA MAIS


Queria mais
Mas sei que é tudo que aconteceria
Queria mais
Mesmo sabendo que mais não caberia
Queria mais
Porque Querer é meu sobrenome
E Mais é meu apelido
Queria mais
Sabendo que feria
Mas sou assim
........Sabes
.......................Firo
........Se não
.......................Não sou
........Sou nas feridas dos outros
.......................Que refletem todas as minhas
Queria mais
Tinha bebida
A música nos movia
Queria
Mais que um flerte de bar
Mais que um beijo de despedida
Mais que um gosto de querer, mas...
Querias mais???

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A menina e a mosca (PRIMEIRA PARTE)


Será que toda menina de doze anos gosta de mexer na sua bucetinha?
Se é comum entre as meninas essa agitação... com ela não era diferente.
Para ela isso era coisa natural, instintiva, incontrolável... como seu apetite pelo melado de açúcar ...
Menina feia, cariada, cabelo joãozinho, muitos piolhos a lhe fervilhar a nuca, muitas lêndeas a lhe branquear os fios negros de seus cabelos escorridos cheirando a sabão de soda...
Gozava várias vezes por dia, ia sem tabu ou pudor; procurava o banheiro sempre que alguma visão, movimento, frustração ou toque lhe despertava a lembrança do ato, estava viciada... era sua fuga... válvula de escape... universo paralelo, nem sagrado e nem profano, estava além disso, muito pelo contrário...
Quando andava de bicicleta, roçava-se no banco ou no cano (se bicicleta fosse do irmão)...quando subia na árvore, ficava sentindo o tronco a lhe esfregar no "grelhinho" até este ficar inchado, doído... era maluquinha...certa vez deixou uma cadela lhe lamber, foi a loucura, água na boca, cãibras, calafrios, sempre misturados com suor de barata nos pelos crescendo... perereca azeda... unhas dos pés encardidas e as dos dedões encravadas, fedendo a carniça... as da mão roídas... ia para o chuveiro sempre na intenção de utilizá-lo além do banho (o pai havia cruelmente tirado o cheveirinho), mas não havia dificuldade... ficava de pernas para o ar... deixando a água do chuveiro cair em sua buceta a fazê-la viajar para outros espaços mais felizes... queria estar sempre assim: excitada, com tesão, desconcertada diante das sensações animalescas e febris... mas depois tinha medo, sentia culpa, ia a igreja aos domingos e... depois da missa... esforçava-se em não pensar mais naquilo... mas era só o domingo acabar e... o sol da segunda esquentar seus miolos congestionados de parasitas... estava ela lá... enfiando os dedos, molhados de saliva, no interior de suas calcinhas encardidas... não se aproximava da entrada vaginal, tinha pavor em se machucar, sangrar... mas o clítoris... que céu... era um lugar para ficar, morar, mecher, esfregar, até a exaustão... sua ilha particular...
Sentia-se estranha diante de seus familiares, a seus olhos pareciam nunca ter feito isso... pareciam não gozar... por isso preocupava-se em se esconder sempre... mesmo quando fazia debaixo dos lençóis, antes de dormir, no meio de uma noite sem sono ou quando acordava... para dar-lhe ânimo para viver... mas não gostava de fazer na cama...pois a mão ficava presa debaixo do seu corpo esguio e seu braço esquelético ficava dolorido, com sangue preso... sim era muito magra... figura andrógina... corpo sem forma, sem  geito, corpo masculinizado pela ausência de mamas, bunda ou quadris que lembrassem uma fêmea... seco, sem curvas, andava vestida como um menino. Enfrentava a vida como um menino... gostava de se masturbar como os meninos... falava o que vinha a cabeça como um menino... apanhava como um menino...
A fêmea só estava dentro de si... consumindo-a... incinerando-a, colocamdo em combustão expontânea seus poucos pelos, suas poucas carnes... sentia-se uma hiena em meio a suas próprias podridões e apetites...
Além disso, tinha mau hálito e corpo perebento... figura indesejável... imaginava, por isso, no momento de suas insanas promiscuidades, estar transando com todo mundo que, impossivelmente pudesse enxergá-la como pessoa, pessoas que encontrava pelas ruas, TV, missas e casas que ganhava algum trocado como babá ou faxineira... era muito criança... muito carente... faltavam-lhe olhares, que são sopros que sinalizam a existência, mesmo que temporária, do mais ignóbio ser...
Seu corpo denunciava isso, imatura, verde... verde de pele, numa anemia lombriguenta...
Doze anos, ninguém para beija-la, se apaixonar por ela ou desejá-la nos braços... aberração...
Sonhava em conseguir as coisas fáceis, como ganhar num jogo qualquer que o pai apostava pedindo sempre sua opinião para um número, um time ou um bicho, ele nunca ganhou e parou de jogar, ela também, além da sua siririca nunca obteve nada sem trabalho... o tripalium... o sacrifício dos pobres chafurdados na honestidade cristã demente.
Naquela tarde tudo estava como de costume, tinha ido a aula pela manhã (era boa nisso), almoço com batatinha ensopada (dava-lhe aftas), tinha enxugado a louça chorando (sempre apanhava para cumprir suas tarefas domésticas)... brincado um pouco na rua... lavado os calçado de todos (chorando novamente no seu calvário)... quanto chinelo... nunca ficava bem feito seu serviço... aí vinham os beliscões, puchões  de orelha, de cabelo e aqueles momentos de martírio e humilhação pública: "- preguiçosa, porca, imprestável, imundice" ... por aí afora... que merda... ela nunca ouvia um palavrão decente... nunca um "desgraçada, porra, caralho, biscate, vai se foder "... nunca... o pai não aceitava... até para lhe xingarem eram avarentos...
Foi correndo para o banheiro buscar seu refúgio... seu bálsamo ... chorando e maldizendo a irmã, a família, a casa, a vida... trancou-se naquele espaço frio e úmido, olhou para o espelho manchado do armário de escovas e teve dó de si... dó de sua existência sem sentido... dó do seu nada... sentou-se no vazo... um banheiro para dez pessoas... fedia a banheiro rodoviária ou de posto de estrada... tapete sujo, embolado e molhado próximo aos seus pés... precisava sair daquela realidade... buscava o ópio entre suas pernas manchadas pelas perebas, com cascas ou cicatrizes recente e antigas, arroxeadas pelos tombos e brigas na rua (além do seu próprio geito desastrado de acidentar-se em portas, maçanetas, cantos de móveis), esverdeadas pelo seu tom de pele indefinidos com tantas misturas étnicas... era brasileira... mestiça de tantas origens nômades na ilusão de melhores destinos para a prole, tantos êxodos, fugas da miséria para a pobreza, todos tinham dó de sua família, eram coitados... tantos coitos... tantos rebentos...
Tirou a calcinha e jogou-a enrolada dentro da pia cheia de pastas grudada, louça barata, amarelada, encardida, como o fundo de sua calcinha...
Estava cercada por azulejos num florido seboso, mal rejuntado, alguns trincados e na falta de outros o cimento embolorado, mofo, lodoso... muitos banhos... mijos...fezes... muita gente pra sujar...
Mas isso não a incomodava, nem a curtina de plástico com a parte inferior corroída e esburacada... nem um dos vidros quebrados... nada tirava dela a idéia fixa de sentir prazer... imaginava até uma autofelação... era urgente ter alguma compensação...
Abriu as pernas... cuspiu nos dedos da mão direita e com a mão esquerda abriu os grandes lábios que, como núvens, cobriam o seu sol... começou num vai e vem delicado... esperando que a excitação que trouxesse o líquido oleoso que iria deixar aquele momento mais liso, mais ágil... mais quente... conforme ia crescendo seu clítoris ia diminuindo seu olfato e perdendo os sentidos racionais... começava sentir-se embriagada... ia buscando um personagem para lhe desejar... lhe chamar... lhe possuir...
quando ouviu um zumbido... era a mosca... passeou sobre sua cabeça... depois fez um voo pelo banheiro, atraída pelo cheiro desagradável desse cubículo azedo, ácido, ardido...
O barulho que vinha de fora, a máquina de madeira redonda, a fazia ainda mais envolvida com a nova participante de sua terapia ocupacional... fazia com que ela adotasse aquele som e se tornasse cada vez maior... de repente a mosca pousou na cortina próxima de si... e olhou-a fixa e cinicamente.
(CONTINUA)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

SONHOS E SONHOS...

QUERO QUE ME ASSUMA
            MORAR NUMA CHÁCARA COM FRUTAS
BEIJAR MUITO NA BOCA
            TER UMA FONTE COM PEIXES
SER DESEJAVA COM FORÇA
             ESPAÇO PARA ANIMAIS DOMÉSTICOS
SER AMADA
            ORQUÍDEAS
SER QUERIDA
           CACTOS
SER CUIDADA
           UMA SALA ESPAÇOSA, AREJADA E CLARA PARA LEITURA
SER ESPERADA
           TEMPO PARA O MESTRADO
QUERO CASAR DE NOIVA
            ESCREVER LIVROS COM POUCAS OU MUITAS MÃOS
NUM VESTIDO LILÁS
            PARAR DE SONHAR...

Tsunami

Death & Mathew
Gerson Watanuki

10:00 - Estou no trabalho cumprindo horas extras... Estou muito triste. Se queria me decepcionar, conseguiu. Eu não estou chateada só porque não foi e nem me avisou com antecedência, também não só porque o estacionamento estava vazio, o prédio escuro e, tirando o pessoal da limpeza e internos, só tinha eu sentada em frente a sua sala por 30 minutos, esperando por um milagre... Fiquei aborrecida por não ter sido avisada... tinha evitado que eu viesse "falando" o caminho todos sozinha com você até chegar ao consultório, com muito cuidado para não deixar que as coisas mais importantes evaporassem antes que pudessem chegar aos seus ouvidos... Fiquei esperando em vão... desconcertada... mas você disse que viria... mesmo que os outros não viessem... por isso não pude falar tudo que havia preparado no meu caldeirão... - Não pude te falar do quanto essa semana foi pesada para mim; - Não pude te falar do quanto estou para explodir a qualquer hora... em qualquer lugar... com qualquer um... como fazem as cadelas; - Não pude te falar o quanto culpo o Totem por ter me abandonado, não cuidando de mim, não cumprindo seu papel de controlar tudo aquilo que não quero que aflore como um EU descontrolado... me deixando solta para o Universo que eu não queria voltar a ser... e ainda de maneira mais agressiva; - Não pude te falar do meu ressentimento pelo quanto me dediquei a esse relacionamento com a ocupação quase que filantrópica, uma terapia ocupacional, e não tive o pagamento ou resultado esperado... acredito ser melhor do que um não alguém... preciso de "falar" tudo o que deixou de ouvir... Que sensação horrível. Uma dor quase insuportável (dói, dói muito, eu não consigo chorar... uma pressão que sufoca a voz e a visão... Foi assim até subir de volta ao estacionamento... sempre olhando para as pessoas dos carros que vinham, como se pudesse vê-lo chegando atrasado... numa angústia de justificar o que havia acontecido, amenizar minha dor, a sua ação (apenas um atraso é melhor que o esquecimento) Quando cheguei no carro o choro veio, infantil, estava protegida pelos vidros fechados para ninguém escutar os soluços, os gemidos, os grunhidos, o descontrole das tempestades de verão... Estou muito triste... e se choro é porque eu esperava que você... como bom ouvidor... tivesse um interesse maior pelo que passo... além de um simples protocolo... estágio... projeto... com tempo determinado para começar e terminar... Sei que não devia ter invadido seu espaço, já havíamos combinado assim,,, não quero fazer nenhuma besteira maior do que minha própria existência... Precisava abastecer mas não conseguia parar de chorar para estacionar em algum posto... segui até o trabalho, parei no estacionamento e tentei refazer meus olhos ardendo em brasa... Perdoe-me ter entrado, mas eu precisava muito... Não precisa continuar se não quiser... se não precisar mais de mim... mas que seja logo... abandonos repetidos ...não estou preparada. Eu só queria que me ouvisse. Eu te avisei do feriado. Mas confirmou... disse que viríamos... Enfim... Fiquei com o choro e com muitas idéias na cabeça que não puderam se esvaziar em você... se eu explodir... se eu não suportar... se for pesado demais...
Obs 1: 11:30 ao ligar em casa, recebi o recado, estou esperando... Obs 2: 22:16 coloquei o celular para carregar a bateria e recebi seu segundo recado... Obs 3: mas mesmo assim resolvi mandar o recado, para você me ajudar a entender porque sou tão dramática, tão visceral... que de lúcida não tenho nem a máscara...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ONTEM














Modigliani

Ontem a essa hora eu sorria, ria, vivia...
Eu falava abertamente, sugava suas histórias
Ontem nessa hora eu o admirava todo
Me expunha, como realmente sou
Expiava, espionava, explorava
Olhei, vi e observei em detalhes
Seus cabelos, olhos, boca movimentando-se em cada sílaba
Me interessava com todo corpo pelos seus contos e cantos, poesias sem pontos
Curioso como estávamos bem
Livres, juntos, esperando a sobremesa...
Ontem eu existia naquele instante autêntico
Na sua frente, no seu olhar, despida de máscaras
Existia.
Como sua, como minha.
Ontem existiu
Um buraco na existência
Um universo paralelo
Um abismo entre os olhares alheios
Quero mais "ontens"
Mais conversas despretenciosas
Risos ou choros em desabafos histéricos
extravazados
felicidade infantil... travessuras...
... sobremesas doces e molha
das dos seus beijos.
 












alberto sughi



Inédito Recado






















Recebi um inédito recado
Recados recebemos sempre
Mas inéditos, só a primeira vez
Era cândido e efêmero
Voava sempre entre borboletas e beija-flores
Lembrava uma fumaça que não se prende
Imitava núvens que desenhavam zepelins
Usava máscara sem bailes
Virava sombras em brailes
Era um recado de músicas dionisíacas
Flautas, harpas, cítaras o acompanhavam
Entre bosques, lençóis e carnes... oníricos...
Tímido, eficiente e passageiro
Não querendo ficar e deixando-se aos pedaços
Recados são recantos de idéias
Idealizando cantos de descanso ou campos de batalha
Guardei-o entre meus seios
Como se fosse possível prender
Pensamentos, sentimentos, vontades
Pois são seres alados, voláteis
Entre cavaleiros insanos
Nunca vem sozinhos e jamais partem incólumes
Modam de enfoque ou deformam onde tocam
Aos sussurros, grunhidos e gemidos
Abafados pelos espíritos curiosos
Recados
São alimentos para os sonhos dos condenados.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

IVAN LINS - TEM LETRAS DE MÚSICAS DELICIOSAS





PAIXÃO SECRETA
IVAN LINS






Quando abriu a porta e entrou
Mudou tanto a atmosfera
Que nem precisei dizer quem era
Bastou se aproximar de mim
Pra eu jogar fora o meu gim

E sem usar droga nenhuma
Estranhamente eu entrei numa
De contar piadas, de dar gargalhadas
Que quando me dei por mim
Já estava assim
Igual aos seres mais felizes
Aos que nunca estiveram em crise
Aos que já esqueceram suas cicatrizes
Remoçando outra vez
Meu coração

Eu estava revelando a todos
Minha paixão secreta
Minha paixão secreta
Minha paixão...

Quando abriu a porta e saiu
Mudou tanto a atmosfera
Que nem precisei dizer quem era
Bastou se afastar de mim
E o garçom me trouxe o gim




ESTAVA LENDO A POESIA DE SUA CANÇÕES... SÃO MUITO BONITAS... SE QUISEREM RELEMBRAR OU CONHECER MAIS.... LINK:  Ivan Lins













sexta-feira, 6 de novembro de 2009

HISTÓRIAS DE UMA BANHEIRA ROSA

Sempre que me pego a pensar ... profissão, sina ou tesão do meu eu atormentado... surgem algumas questões que não deixam de ser intrigrantes: a utilidade das coisas! 

                                                                                              Quando comprei a banheira rosa era para banhar a "luzinha" que estava chegando para clarear-me... e a banheira serviria para isso: deixá-la limpa e cheirosa, clara, claro.

Foi chegando e se aconchegando dentro de um cômodo quase pronto em móveis e objetos para os dias vindouros... e como tudo deve servir a algo (será?)... resolvemos que deveria se encher de coisas, das mais variadas, até que chegasse o momento de encher-se de água quente e acolhedora, então serviu para acomodar minúsculos sapatinhos, para moldar pés que ainda nem sabiam para onde iriam, também todas as trocas de roupas que foram sendo presenteadas e posteriormente seriam lavadas para uso (como de costume)...
Quando a vergôntea rebentou a banheira assumiu sua verdadeira função: guardar água para um banho, algo que lembrasse o lugar de onde brotam aqueles que não sabem ainda se lavar sozinhos... e assim foi por bastante tempo, exclusiva para o banho... porém, conforme vamos nos confirmando bípedes, alargar os horizontes é necessário (será?) e nos obrigam, e fazemos com os nossos, tomar banho em pé... logo, aos poucos, a banheira se torna supérflua para essa utilização... saindo assim do banheiro e indo para área de serviço:
ajuda para tirarmos as roupas da máquina, antes de colocá-las no varal;
ajuda quando tiramos as roupas do varal e colocamos para passar (como esse afazer da roupa é cansativo);
já foi utilizada para juntar brinquedos;
mini piscina para maiores brincarem no quintal com brinquedos/barcos que bóiam em alguma água reutilizável;
para colher frutas do pomar;
recolher água da chuva;
acomodar panelas cheias de alimento para não virarem no porta-malas do carro;
colocar muita louça suja, após um grande almoço, que não cabe na pia ou após ser lavada para secar ao sol;
armazenar as carne que chegam para churrasco "americano" próximo da churrasqueira;
colocar os milhos que vão sendo retirados da palha para a pamonha....
... E quando pensei que houvesse esgotado todas as possibilidades....
... a banheira serviu para colocar os pés de molho, para um serviço de manicure caseiro...
...Mas como tudo que é muito útil dura pouco (será?)... a banheira caiu e trincou o fundo...
... tenho muita dificuldade de me desfazer das coisas... mas tive que dar a última utilidade a ela... servir de material de reaproveitamento para catador de material reaproveitável... sei lá por onde ela "anda" agora... de qualquer forma (literalmente) deve ser útil em qualquer lugar onde se atrever a se oferecer por 1 e 99... como são úteis as pessoas em nossa vida... até que não percebamos um estrago em algum lugar nelas ou em nossos  nós que nos faça descartá-las...

domingo, 1 de novembro de 2009

A verdade é o mito.

O que existe e o que é verdade?
A filosofia apresenta olhares sobre esse conceito:
- Se pensarmos em termos materialistas/empiristas: só existe aquilo que os nossos sentidos podem comprovar, ou seja, nossa experiência, sensações (Locke). Nesse ponto de vista então, não existe nada confiável que não seja materialmente percebido.
- Se pensarmos em termos idealistas: primeiro existe o pensamento (para Hegel: ele apenas; ou aquilo que ele pensa), então, para os idealistas a matéria pode ser dependente da idéia que fazemos dela (Descartes), pode também ser apenas fruto da representação de nossas vontades (Schopenhauer).
- Já para Kant e os kantianos, o conhecimento verdadeiro só pode surgir do a priori (razão) mais o a posteriori (experiência). Uma forma de dizer que a verdade existe na aceitação de tudo?
Pensando assim, podemos dizer que tudo o que pensamos  é verdade, pois a partir do momento que é pensado, já existe; ou que tudo que experienciamos não existe, vivendo nós numa ilusão mental constante, enganados pelas ilusões que criamos...
De qualquer forma, desde a valorização da razão, a ciência e a filosofia tem buscado desqualificar o mito (como primitivo e sem sentido) esquecendo seu caráter explicativo, organizativo e compensatório (Lévi-Strauss), e numa ousadia repudiada por Nietzsche, se colocaram como deuses... só os desconstrutivistas (Marcuse) para quebrar com a idéia de uma razão pura e salvadora para mostrar todo poder bélico e nocivo da lógica cientificista (Foucault)... somos braços de um polvo curioso e angustiado em sua existência pensante... ninguém deve estar autorizado a ser sua cabeça.

E por falar em mitos... vamos saborear alguns do nosso Brasil varonil, de tantas mentiras contemporâneas...


sábado, 31 de outubro de 2009

minhas ilusões

MINHAS ILUSÕES
Asas e leões despedaçados...

Espera... do verbo nunca.

Lola
A esperança é um serial killer.
É o que sobra de nosso filme de terror cotidiano...
Da nossa rotina apolínica...
Da nossa pulsão de morte.
Mãe dos recalques e ressentimentos que assombram os nossos sonhos ... ou seriam pesadelos dionisíacos (bacanais).
A esperança é vampiro.
É zumbi.
É o demônio que ninguém se atreve exorcizar.
Mal hálito.
É esgoto, é febre, é medo de descobrir o nada que há além dessa existência natural/biológica.
Disfarçada em carta de baralho, meio chocolate, flores encontradas pelo caminho, palavras entrecruzadas, contos, poesias... em portas de botecos... um ou outro quase beijos... acorde: bela adormecida dos bancos de madeira - é a esperança, disfarçada de armadura que te veste para a próxima travessura cruel.



Mais um de meus delícios

O Psicanalista
http://br.olhares.com/Watanuki
... você me ligou, eu preparava o almoço, me perguntou se podíamos conversar nesse momento, lhe disse se preferia carne com batata ou carne de panela acompanhada com purê de batata... ficou um vazio... não sabia se queria rir... desligar talvez... me fazer alguma pergunta embaraçosa como seu costume ou, simplesmente, dizer que eu não lhe despertava o apetite...
... me ofereceu mais um espaço em sua agenda restrita (que bondade) ... ínfimo buraco negro... pensei em aceitar de pronto, sem pensar em outras racionalizações, já que era o único espaço em que iríamos dividir (ouvidos inquisitivos, olhos sabatinadores , atenção lógica), mas disse não, outros compromissos, queria mais. Porém não me encontrava em situação confortável para negociar. Parecia dicidido a manter-me em seu receptáculo de observação... utilizando-se de todos os meios físicos e metafísicos para evitar um contato/contágio... ainda não determinamos a patologia, como pode ser ou não transmitida, possíveis profilaxias... enfim... uma incógnita não deve ser ingerida. Estava de quarentena, provavelmente até quando for importante eu serei seu objeto, quando não mais, simplesmente mais um descarte, facilmente substituída por qualquer outra patética análise, é um ofício, um tripalium... afinal, não tenho nada para não ser feliz.
Obs:  o telefone tocou...